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Ruas de Maceió não têm mobilidade adequada para deficientes visuais

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As barreiras enfrentadas pelos deficientes visuais vão além das limitações físicas. Isso ocorre porque questões sociais interferem bastante na mobilidade de quem não pode contar com todos os sentidos. Em Alagoas, os deficientes visuais reclamam que os maiores desafios são o descumprimento das legislações que envolvem questões de mobilidade e inclusão social. Diante disso, é preciso driblar as dificuldades para fazer tarefas simples como andar na calçada, pegar um ônibus ou ir a uma padaria.

Os problemas vão desde a falta de estrutura de calçamentos e calçadas a ausência de sinal sonoro em semáforos. Para quem tem a mobilidade limitada, qualquer tarefa pode se tornar um desafio quando a lei de acessibilidade não é respeitada. E, entre tantas questões, a falta de consciência e respeito da população se torna outro grande obstáculo.

A reportagem do G1 acompanhou um deficiente visual que estuda na Escola de Cegos Cyro Accioly, no centro de Maceió, e pode observar que até em ruas próximas ao prédio da escola pública a falta de acessibilidade é um transtorno para os deficientes. José Cícero da Silva, 38, perdeu a visão há dois anos e passa pelo desafio de reaprender a andar nas ruas e fazer as tarefas simples do dia a dia.

Quando ele anda pelas ruas da cidade a bengala ajuda, mas não impede que o novo estudante passe por inúmeras dificuldades que poderiam ser amenizadas através do bom senso das pessoas que possuem negócios e trafegam pelas vias. Como está tendo aulas de locomoção há apenas dois meses na Cyro Accioly, José Cícero ainda depende de pessoas para se locomover.

Acompanhado de uma instrutora, ele saiu pelas ruas no entorno da escola de cegos para demonstrar o quanto as questões de mobilidade são importantes para atender a demanda de milhares de pessoas com deficiência que circulam pela cidade.

Ao começar o trajeto, bastou José Cícero passar pelo portão da escola para se deparar com as primeiras barreiras. São buracos, veículos estacionados indevidamente nas calçadas, entulho e lixo nos pontos de circulação de pessoas, além de correntes que delimitam espaço para estacionamento; tudo isso espalhado ao longo de calçadas irregulares.

“É muito difícil andar sozinho. Um percurso curto pode demorar um tempo enorme. Como já enxerguei, ainda tenho mais noção dos lugares que vou, mesmo assim é bastante complicado”, relatou José Cícero.

Para o estudante, o desrespeito piora a situação. Ele conta que muitas pessoas não sabem como lidar com um deficiente visual e outras não se importam em ter atitudes que demonstrem respeito. “Não queremos que nos ajudem a andar, apenas que deixem o espaço livre para podermos nos locomover mais rápido, sem risco de esbarrar em algum obstáculo”, falou.

José Cícero relatou que já perdeu as contas de quantas vezes se deparou com empecilhos nas ruas da capital alagoana. “Já esbarrei em orelhão e placas espalhadas. Acho que o poder público deveria fiscalizar melhor as ruas, principalmente lugares de maior concentração de pessoas, como o centro da cidade. Nós somos cidadãos. Temos o direito de ir e vir sem ser expostos a riscos”, reclamou. 

A professora e fisioterapeuta Albanize Mirindida Bomfim, do departamento de Orientação e Mobilidade da Cyro Accioly, trabalha há muitos anos com pessoas cegas. Para ela, apesar de alguns avanços que têm sido feitos para que seja cumprida a lei, ainda há muita coisa a ser feita. 

Durante o trabalho, ela orienta pessoas sobre como ter mais mobilidade e ao longo do tempo ganhar independência. “Quando nós fazemos uma análise mais atenta dos lugares, percebemos que a falta de acessibilidade não está apenas nas ruas, mas também em repartições públicas, bancos e áreas de lazer”, falou.


Para que um deficiente visual tenha independência para sair sozinho de casa, segundo Albanize, é preciso que ele passe por orientação. Na escola de cegos, ela ensina como tornar a locomoção mais fácil em aulas que acontecem em sala de aula e pelas ruas da cidade. “Mostramos todas as dificuldades que podem ser encontradas, como o desnível em calçadas, catracas de ônibus, escadas, e outras barreiras”, explicou. 

O estudante universitário, Walter Simões, que cursa Letras em uma faculdade de Alagoas, é deficiente visual e tenta levar uma vida com independência. Ele sai de casa sozinho, pega ônibus para se deslocar aos mais diversos lugares. “No ponto de ônibus, quando há alguém, peço que me ajude a identificar o número do ônibus. Quando estou só, ao escutar o barulho do veículo, faço sinal para que pare e pergunto ao motorista se ele passa no meu destino”, conta.

Quando o aluno está apto para sair sozinho às ruas, ele começa a usar uma bengala branca. “Ela representa a autonomia do deficiente visual. Se as pessoas encontrarem alguém com uma delas, podem ter certeza de que essa pessoa sabe se locomover. Mas isso não impede que o deficiente visual sinta algumas dificuldades, que podem ser minimizadas com uma maior conscientização da sociedade”, afirmou.

Assim como Silva, Simões diz que o maior problema enfrentado é a falta de acessibilidade. “Para vir à escola no centro eu saio sozinho porque o ônibus para muito próximo. Já para a faculdade preciso que meu irmão me leve porque o ponto de ônibus é longe e as calçadas são complicadas para chegar lá”, falou.

Escola ajuda na educação e mobilidade
A Escola Estadual de Cegos Cyro Accioly é a única do estado especializada em atendimento para portadores de deficiência visual. O local é público e tem mais de 100 alunos matriculados. Lá, eles podem ter acesso a aulas de leitura e escrita em braile, informática, apoio pedagógico e psicológico, reeducação visual, Atividade da Vida Autônoma (AVA), assinatura cursiva, Educação Física, orientação e mobilidade e até aulas de violão. A escola ainda oferece transporte para o deslocamento de casa à instituição.

A Cyro Accioly não estabelece um limite de idade para a assistência. Segundo Albanize Mirindida, o foco da escola é  ajudar no aprendizado e na locomoção dos alunos. Para isso, o espaço conta com uma estrutura diferenciada e profissionais especializados. “A escola é referência e atende pessoas da capital e interior”, destacou a professora, ao informar que a escola possui uma turma para alunos que pretendem fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

A unidade também oferta aulas de alfabetização em braile e uma biblioteca onde também é feito o trabalho de conversão de livros para essa linguagem. A coordenadora do Núcleo de Aprendizagem, Sleila Caldas, explicou que a Cyro Accioly também promove capacitação de professores.

“Desde 2004, o MEC está com ações voltadas à acessibilidade nas escolas. Algumas unidades possuem Salas de Recurso, que são locais adaptados ao deficiente visual. Mas para que ela funcione, o professor deve estar capacitado”, informou a coordenadora.

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